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Manifesto de Suzuki

por Mäyjo, em 24.04.14

 

Depois do "julgamento" público de David Suzuki, no Canadá, em que foi considerado inocente, chegou a vez de aqui deixar o seu Manifesto do Carbono, em vídeo legendado e em texto (traduzido daqui).

Neste manifesto, David Suzuki acusa as corporações, o governo e os cidadãos do Canadá de crimes contra as futuras gerações.



Manifesto do Carbono de David Suzuki 

«Sou David Suzuki. Estou aqui hoje como um ancião, para além das tentações do dinheiro, fama ou poder! Não tenho uma agenda escondida, venho falar a verdade!

Os seres humanos no mundo natural são muitas vezes demasiado belos para palavras! Passei a maior parte da minha carreira a filmar as maravilhas da natureza e nosso lugar nela. E muitas vezes, as palavras faltaram-me! Aproximando-me do fim da minha vida, espanto-me com o poder, a tecnologia, a riqueza e o consumo que a humanidade adquiriu! E que transformou as nossas vidas, mas ao mesmo tempo, destruindo os sistemas de suporte da vida em que a nossa existência e bem estar dependem: o ar, a água, o solo e os alimentos, atividade fotossintética e biodiversidade.

Agora, os meus netos são a alegria da minha vida, mas eu sei como é incerto o seu futuro, e que todas as ninharias da nossa sociedade de consumo não podem compensar as maravilhosas riquezas e a generosidade da natureza! Mas não é preciso ficar comovido com a beleza do mundo para compreender que dependemos dele completamente para a nossa própria existência. A minha geração pós-guerra e os 'boomers´(geração de 60) que se seguiram viveram como reis e rainhas, numa festa, como se não houvesse amanhã, sem preocupações com o tipo de mundo que iríamos deixar para as crianças. Bem, a festa acabou! 

“Seres humanos e o mundo natural estão em rota de colisão… Se não forem controladas, muitas das nossas práticas correntes colocam em sério risco o futuro que queremos para a sociedade humana… Não restam mais do que uma ou poucas décadas antes que as hipóteses de reverter as ameaças que agora enfrentamos desapareçam, e as perspetivas para a humanidade, diminuam drasticamente… É necessária uma grande mudança na nossa administração da terra e da vida na terra, se se quer evitar um enorme sofrimento humano, a nossa casa comum neste planeta não pode ser irremediavelmente mutilado.”

Essas palavras são de um Aviso de Cientistas do Mundo à Humanidade, de novembro de 1992, há mais de duas décadas. Foi assinado por mais de 1700 cientistas seniores, de 71 países, e incluiu mais de metade de todos os vencedores de prémios Nobel.

Desde esse aviso dos cientistas, estudos científicos atrás de estudos científicos, documentaram o estado perigoso da atmosfera, dos oceanos, das florestas, da extinção de espécies, poluição tóxica, e consequências imprevistas de novas e poderosas tecnologias.

Agora, estamos à beira de um precipício, que nós próprios cavamos. Em menos de cem anos, conseguimos perder de vista a nossa dependência absoluta da natureza, e a responsabilidade de não deixar desmoronar a nossa casa. Congratulamo-nos com o crescimento, a expansão, os avanços tecnológicos e os lucros, e vivemos na ilusão de que a nossa criatividade nos permitirá manter a economia a crescer sem limite.

O Canadá anda perto da linha da frente quando se trata de crescimento e lucro no mundo. E a tirania da crença de que a economia é o que mais importa para o país transformou-nos até um ponto em que dificilmente nos conseguimos reconhecer. George Monbiot escreveu: "O Canadá, um país decente, culto e liberal, foi transformado num petro-estado delinquente." Eu acredito que isto é o que somos, um país que, apesar de tudo o que a ciência nos diz, e apesar do que as mudanças no clima nos dizem, está determinado a espremer todas as gotas de petróleo do solo, para agarrar o último dos lucros, para alimentar um vício que sabemos que está a destruir o futuro das novas gerações.

Governos e corporações (empresas multinacionais) não estão apenas a falhar-nos, eles são as forças motrizes que nos estão a levar ao limite, ignorando deliberadamente as consequências e cometendo, assim, o que só pode ser chamado de crime intergeracional. As consequências das suas ações - e inações - vão-se repercutir por gerações. A cegueira voluntária é uma ofensa condenável, assim como a negligência criminosa, mas um crime intergeracional é um conceito tão recente que ainda temos de desenvolver os mecanismos legais para agir. Aqueles a quem chamam os nossos líderes, devem ser responsabilizados. 

E esta responsabilidade deve-se estender a todos os cidadãos do Canadá. Nós falhamos às nossas crianças e ao nosso planeta, por causa do nosso medo da mudança e do nosso medo do futuro.
Eu acuso as corporações, incluindo os sectores automóvel, energia, farmacêutica, química e agrícola: de colocarem o lucro e o crescimento antes de tudo o resto, incluindo da sobrevivência e saúde da sociedade. De que o seu lobbyng corporativo está a tornar a agenda do país vergonhosa.
Eu acuso os políticos canadianos de crimes intergeracionais. As suas ações afetarão os nossos netos e os netos deles.

Eu acuso as corporações canadianas e o governo de atividades imorais, com consequências devastadoras para as nações mais pobres e vulneráveis do globo.

Eu acuso os políticos do Canadá e os seus cidadãos de cegueira voluntária, de falharem em estar informados de assuntos críticos que têm o poder de influenciar, e de falharem em agir quando estão conscientes de crises ecológicas evitáveis.

Se o meu país se recusa a me exonerar, então ele é culpado por não conseguir defender a acusação alegada, de liberdade de expressão. Se as minhas palavras forem consideradas traição, então que seja!

Com o meu Manifesto do Carbono, eu pretendo parar estes crimes

1 - Acabar com os combustíveis fósseis como a principal fonte de energia. Durante uma geração, devem ser mantidos no solo. Isso significa que a exploração e os subsídios para a indústria de combustíveis fósseis acaba agora.

2 - Salvar os maiores sumidouros de carbono da terra: a floresta boreal do Canadá e os nossos oceanos devem ser protegidos.

3 - 70% da nossa energia tem de ser de origem renovável no prazo de uma geração.

4 - Um imposto sobre o carbono de 150 dólares por tonelada, começa agora.

5 - Os cientistas do clima do Canadá devem poder partilhar as suas descobertas sem censura e sem interferência de interesses políticos e corporativos.

Ofereço-vos este manifesto - compromisso

Os seres humanos tornaram-se tão poderosos que estão a alterar as propriedades biológicas, químicas e físicas do planeta numa escala geológica. Devemos olhar para o futuro, e a ciência, em vez da política ou da economia, deve ser o nosso guia.

Eu sei que a nossa dependência dos combustíveis fósseis tem de acabar.

Eu sei que serão necessárias enormes mudanças para nós sobrevivermos como espécie, ainda mais para prosperar numa crise global convergente em torno do clima, alimentação, água, combustível e economia.

Comprometo-me a parar a epidemia de culpa à volta da crise climática e a reconhecer a minha própria responsabilidade.

A maneira como vivo a minha vida é parte do problema.

Acredito que precisamos de uma nova visão para o futuro como canadianos e como seres humanos
Eu declaro que estou pronto para implementar a mudança.

Quero ser parte da solução, não parte do problema.

Eu estou com o Manifesto do Carbono.

Este é o nosso caminho para a frente!»

Fonte: Tradução do "Suzuki´s Manifesto", Canadá, outubro de 2013

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publicado às 21:25


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